Recordações de um professor(a) II

Que estas singelas anotações sirvam para homenagear esses mestres, nossos professores que, muito mais que passarem pelas nossas vidas, entram definitivamente para nossas eternas lembranças. Seus ensinamentos nos dão a opção de sermos melhores se soubermos deles tirar proveito através da prática de nossas ações no dia a dia, neste grande livro da vida. E quem sabe, a história abaixo possa também fazer você lembrar de alguma boa recordação da sua infância.

Lá estava eu na 4ª série, no ano de 1974, com 10 anos de idade. Escola Municipal Albert Sabin, na Vila da Penha, bairro do Rio de Janeiro. Naquele tempo algumas escolas tinham 3 turnos. O da manhã, de 7 às 11h, o intermediário de 11 às 15h e o da tarde, das 15 às 17h. O turno intermediário tinha direito ao almoço. Era o macarrão com salsicha. O arroz com peixe. Dá para esquecer? Será que é deste tempo a expressão “Só vai à escola para merendar”? Talvez. Não sei.

Era mais um dia de aula com a professora Maria Francisca.

A pessoa responsável pelo almoço na escola pede licença à professora, e se dirige a turma:

“O almoço hoje é arroz com peixe. Quem vai almoçar na escola hoje? Levante a mão por favor”.

Olhamos uns para os outros e ninguém respondeu. A responsável pergunta novamente, e de novo silêncio total.

Aí vem a lição memorável. A professora então nos fala:

“Vocês estão com vergonha de levantar a mão? De dizerem que querem almoçar na escola? Então vou dizer a vocês o que é vergonha. Vergonha é roubar e não poder levar. Não tem porque ter vergonha de comer na escola.”

“Pode perguntar novamente” diz a professora se dirigindo para a responsável.

Por certo que a maioria de nós não deve ter alcançado este ensinamento de pronto, mas a maioria levantou as mãos.

Eu não entendi de pronto. Mas o ensinamento NUNCA saiu da minha cabeça. “Vergonha é roubar e não poder levar”. Na minha lógica: “Roubar e poder levar não seria vergonha também?” É como se a professora estivesse validando o roubo. Só que não…

Recentemente me deparo com o Mario Cortella,  escrevendo sobre ética, assunto tão importante, fazendo correlação com a vergonha, no livro “Ética e vergonha na cara”. Escreve Cortella:

“Porque ética tem a ver com vergonha na cara, com decência, e, repito, a última pessoa que se quer envergonhar é a mãe. É curioso, mas até bandido pode ser prova disso. Por exemplo, já houve situações de assalto a banco com reféns em que o sujeito, mesmo com a polícia toda em volta fazendo o cerco, não se rende. Aí a polícia chama a mãe dele. Ela chega, com a bolsinha no braço, e diz: “Sai daí, menino!”. E ele sai.

Ah, se “o bandido” tivesse estudado com a Maria Francisca, quem sabe não poderia ter tomado outro caminho. A Educação que vem de uma professora, ou mesmo dos pais, não é garantia de que uma pessoa não faça opção por um mau caminho, pois ela tem o livre arbítrio nas suas escolhas. Todavia, tenho convicção que a boa Educação aumenta significativamente a possibilidade de fazermos boas escolhas.

Alguns ensinamentos precisam do tempo para serem amadurecidos. E o que eu admiro é isso:  Os ensinamentos que nos atravessam de tal forma, ou melhor, que nos impactam de tal forma, prosseguem conosco por toda uma vida. Este talvez seja um dos maiores dons de um professor. O dom de fazer com que um ensinamento seja atemporal. Ou seja, 40 anos depois, estou contando aqui para vocês e o ensinamento permanece atual.

Da mesma forma como guardo a lembrança do sabor do arroz com peixe servido na escola, guardo no coração com enorme gratidão as lembranças dos professores que, com seus ensinamentos, me deram a grande oportunidade de distinguir o  certo do errado. Se você é um professor, sinta-se abraçado. E saiba que seus ensinamentos jamais são esquecidos. Isto é o que conta, o que vale. Se você não for professor, que fique pelo menos a lembrança dos seus bons tempos de aluno, e certamente de alguns ensinamentos valiosos deixados pelos seus professores. E se quiser, compartilhe conosco por aqui.



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