Obstáculos para a criatividade

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Existem diversos obstáculos que podem dificultar a criatividade. Que podem interferir no nosso processo criativo. Neste artigo vou levantar apenas dois.

A criatividade é um processo nato. Nascemos criativos. Nascemos curiosos. Nascemos com a imensa disposição de descobrir. De perguntar. De querer conhecer o mundo em que vivemos. Os porquês. Esse talvez seja um dos grandes papéis da infância. Perguntar, desvendar … E com isso vem toda a possibilidade do desenvolvimento da nossa criatividade.

E, talvez, o primeiro obstáculo que enfrentamos para o desenvolvimento da criatividade seja o nosso modelo de educação.Neste modelo, entre outras coisas, desde cedo aprendemos que o mais importante é ter uma nota boa. E nota boa vem com as respostas certas. Fazer perguntas logo cedo é algo que vai sendo deixado de lado. Aliás, perguntar pode significar que “não sabemos”. E não fica “bonito” não saber. Ou, pelo menos, o pai sente orgulho do filho que sabe. Mesmo que seja apenas algo decorado.

Chico Anísio em uma de suas memoráveis criações – A Escolinha do Professor Raimundo –, com aquela leitura ímpar do cotidiano que ele tinha, ilustra bem o que queremos dizer. Ele faz sempre uma pergunta difícil, e o aluno sempre ERRA. Aí ele pergunta ao “Seu Ptolomeu”, (que na vida real era seu filho), vocês lembram? Pois é, “Seu Ptolomeu” responde todas as perguntas e sempre acerta, com total precisão. Além de ganhar um “10”, ganha sempre um elogio do professor: “Queria ter um filho assim”.

E aí, já na infância “enterramos” a curiosidade que se expressa com as perguntas, que são tão importantes para a criatividade.

“A missão do professor é provocar a inteligência, é provocar a curiosidade”. Rubem Alves

Não é diferente no mundo corporativo. Chegamos com a responsabilidade de fazer o certo, sempre. E assim, de reunião em reunião, vivemos um paradoxo, pois a criatividade vale “ouro”, mas em vez de cavarmos para achar a pepita, estamos sempre jogando mais terra em cima, com a “cultura” de que inteligente é quem sabe a resposta certa. E quem sabe mais não deve ter dúvida. Quanta bobagem. Mário Cortella (2007, p. 29) aliás, nos ensina:

“Cuidado com gente que não tem dúvida. Gente que não tem dúvida não é capaz de inovar, de reinventar, não é capaz de fazer de outro modo. Gente que não tem dúvida só é capaz de repetir. Cuidado com gente cheia de certeza. Num mundo de velocidade e mudança, imagine se você e eu somos cheios de certeza a dificuldade que isso nos carrega. Claro, você não pode ser alguém que só tem dúvida, mas não tê-las é sinal de tolice. “Será que estou fazendo do melhor modo? Da maneira mais correta? Será que estou fazendo aquilo que deve ser feito? ”.

Aí vem o outro obstáculo para a criatividade: a nossa forma de lidarmos com o óbvio. Se a nossa educação formal não valoriza fazer perguntas, aprofundar as dúvidas, que são tão importantes para o desenvolvimento da criatividade e para uma mente criativa, o “nosso” óbvio praticamente sepulta este aprofundamento.

Por definição, o óbvio é: “O que não se pode pôr em dúvida. Fácil de descobrir. Que salta à vista. Evidente. Claro. Patente. Axiomático. Incontestável”.

 

O “que salta a vista” muitas vezes é a primeira resposta para uma dúvida. É a primeira solução para uma dor, para um problema. É aqui que matamos a criatividade em sua nascente. Além de não nos especializarmos em fazermos perguntas, adotamos a primeira resposta. A que está na superfície. Normalmente, a menos criativa. Não a descarte, mas não dê tanta atenção a ela. Procure “cavar mais um pouco”.

Em 1950, Nelson Rodrigues consagrou a expressão “Óbvio Ululante” ao publicar um livro com este título. Óbvio Ululante pode ser entendido como “A verdade que grita”.

Eu penso que para você enxergar uma verdade, você precisa se desprender das suas. Não digo jogar fora, mas se desprender mesmo. Não é Sócrates que nos ensina que “A única coisa que sei é que nada sei”?

E o que observo nas redes sociais, nas conversas, nos programas de televisão são certezas, são afirmações com tanta convicção que tudo fica parecendo “muito óbvio”. Para quem afirma. Para quem “é o dono da verdade”.

E assim, a criatividade, que depende da imaginação, das perguntas, da combinação das ideias, das dúvidas, vai sendo sufocada, pois aquilo que é o “nosso” óbvio não precisa de mudança. E a criatividade é a mudança em curso.

Saber fazer as perguntas certas é uma arte. É preciso o aprofundamento das questões, o entendimento profundo das dores. É o que nos leva ao caminho das soluções criativas. Eu penso que a imaginação é o oxigênio da criatividade. E as dúvidas, um de seus alimentos.

E a criatividade depende também da escuta. Mas, pensa comigo: o óbvio para nós está de acordo com as nossas “verdades”. E tudo aquilo que contraria as nossas verdades normalmente não faz sentido para nós. Logo, se alguém fala algo que não faz sentido, o que fazemos? Descartamos. Ou damos menos atenção. É assim com você? Nossa escuta costuma ser seletiva e passa pelo filtro do que é óbvio para nós.

Em resumo quis dizer que de forma geral privilegiamos a escuta do que é óbvio para nós.

Mas há quem veja o óbvio com outros olhos:

“O óbvio é a verdade mais difícil de se enxergar”. Clarice Lispector.

A pergunta que eu faria a Clarice Lispector: Como fazemos para enxergar a verdade, Clarice?

Ela talvez me respondesse: “Faça como Sócrates. Parta do princípio de que nada sabe…”

Ah, agora sim. É preciso então ser humilde. A chave para a criatividade passa pela humildade. É partir do princípio de que nada sabemos. E quem nada sabe, pode ter dúvidas, pode fazer perguntas. E de dúvida em dúvida, de pergunta em pergunta, vamos cavando, vamos aprofundando, vamos entendendo, até chegarmos na pepita de ouro. Não a vemos pois não se encontra na superfície.

“O óbvio é aquilo que nunca é visto, até que alguém o manifeste com simplicidade” Khalil Gibran

Existem muitos outros obstáculos para a criatividade. Deixo aqui para as nossas reflexões a valorização pelas perguntas e o repensar sobre a forma de como lidamos com o que é óbvio.

“O grande problema não é o que você não sabe. É o que você tem certeza que sabe, mas que não é verdade”. Mark Twain

CORTELLA, M. Qual é a tua obra? : inquietações propositivas sobre gestão, liderança e ética. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012



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