Aprendizados no mundo corporativo II

Muitas vezes não basta somente a boa vontade para ajudarmos. Foi o que aprendi em mais uma situação no cotidiano das empresas.

Naquela parada estratégica para tomar um cafezinho um amigo me confidencia:

“A nossa colega acabou de ser demitida. Uma grande injustiça. E passou a me narrar sob o seu ponto de vista várias situações ocorridas e o que teria levado o CEO a aprovar a demissão. E imediatamente eu pensei em como poderia ajudar.

Bem, naquele tempo eu nunca tinha visto um juiz dar um pênalti e voltar atrás. Muito menos alguém ser demitido e ser readmitido logo depois. Deveria ser o suficiente para eu ser cauteloso. Como eu era subordinado diretamente ao CEO, deixei meu ímpeto de ajudar falar mais alto, sem avaliar mais concretamente a situação. Então, me dirigi à sala dele:

– Tem um minuto?

– Pois não, Alberto (aqui também eu ainda não tinha sido descoberto como Zeca).

– Fiquei sabendo agora da demissão de uma colega. É uma situação delicada e que não me diz respeito, mas eu gostaria de ajudar. Resumi então o que eu soubera, sem naturalmente citar por quem.

Ele me escutou calmamente e quando acabei minha narrativa, disse o seguinte:

– Alberto, eu só não lhe dou um grande “passa fora” porque conheço as suas boas intenções. E respeito isso. E só por isso vou lhe contar o que realmente aconteceu. Senão você já estaria fora da minha sala.

E então me narrou uma história com dados que, por motivos que desconheço, foram omitidos pelo meu amigo. Ou ele desconhecia. Ao final da narrativa concluiu:

“Se você está no meio da floresta, você não tem a visão do todo. Dificilmente você entenderá a decisão de quem tem a visão de cima da floresta. Cuidado ao julgar quando você não tem a visão do topo da floresta.”

Fiquei embaraçado, me desculpei e voltei para o meu trabalho.

Perdi a conta ao longo da vida de quantas conversas vi e vejo sobre opiniões de determinada situação para logo após as vozes se levantarem clamando por Justiça. Ou quantas vezes ouço a expressão: “Isto é uma grande injustiça”. Algumas vezes ainda me deixo levar por essa torrente de opiniões, pois a injustiça nos incomoda.

E nesse incômodo, tenho percebido que nos deixamos facilmente manipular. Para lá na frente dizermos: “Fui enganado”.

É saudável buscar “a visão de cima da floresta”. É um caminho árduo, trabalhoso, pois é preciso escutar o outro lado, ouvir outras opiniões, opiniões estas que muitas vezes divergem do que pensamos, do que acreditamos ser a verdade. E aí cada descoberta pode trazer um convite a mudar de opinião, ou o mais difícil, uma mudança de atitude diante da nova visão adquirida.

Hoje eu não tenho dúvida de que por mais difícil que seja, a mudança de comportamento baseada na “visão do topo da floresta” nos poupa de muitas ilusões e de muitos sofrimentos. E evita que nos deixemos enganar, ou sejamos manipulados com tanta facilidade.

E quando não temos como alcançar essa “visão do topo da floresta”, (nem sempre haverá quem nos deixe inteirados dos fatos), ou estamos em uma posição que limita essa visão, podemos pelo menos ser mais cautelosos. Depois do ocorrido, a cautela tem me livrado de uma série de embaraços.

Quando vejo o clamor por justiça, pondero comigo mesmo: Conheço todos os fatos? Estou sendo imparcial?

Da mesma forma que uma moeda tem dois lados, uma história tem também pelo menos duas versões.

Logo, não posso afirmar peremptoriamente que é uma injustiça sem conhecer “a outra versão”. O outro lado da moeda. Se conhecendo os dois lados e até com uma visão privilegiada da “floresta” já é difícil sermos imparciais, sem esta visão fica mais difícil ainda. Na dúvida, eu cada vez mais utilizo cautela. Agora, é preciso não confundir cautela



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